R$ 3.000 recebidos como CPF viram R$ 1.980 líquidos depois de IR e INSS. Isso não é exagero — é a tabela de 2026.
A maioria dos autônomos não faz essa conta. Trabalha, recebe, e percebe no fim do mês que sobrou muito menos do que esperava. O problema não é só o IR: é a combinação de IR + INSS + ISS que come uma fatia enorme da receita de quem trabalha como pessoa física.
Este artigo apresenta a simulação completa com três faixas de faturamento — R$ 3.000, R$ 5.000 e R$ 10.000 mensais — nos três regimes principais: CPF (pessoa física), MEI e Simples Nacional. Os números são de 2026.
Como foi feita a simulação
Premissas adotadas:
- Prestação de serviços (não comércio ou indústria)
- Sem dependentes, sem deduções de Livro Caixa no CPF
- INSS no CPF: alíquota de 20% sobre a receita (contribuinte individual padrão), limitado ao teto do INSS (R$ 8.157,41/mês em 2026)
- ISS no CPF: 5% sobre a receita bruta (alíquota comum em serviços nas principais cidades)
- MEI: DAS de R$ 75,90/mês para prestador de serviços (inclui INSS + ISS + IRPJ fixo)
- Simples Nacional Anexo III: faixa de receita bruta anual até R$ 180.000 (alíquota 6%) e até R$ 360.000 (alíquota 11,2%), com Fator R favorável (folha de pagamento ≥ 28% da receita)
- Simples Nacional Anexo V: mesmas faixas, sem Fator R favorável (alíquota 15,5% e 17,5%)
Os valores de IR no CPF foram calculados com a tabela progressiva 2026 após dedução do INSS.
CPF (pessoa física): o mais caro
Trabalhar como CPF é o regime mais simples de abrir — e o mais caro. Não há mensalidade de contador, não há abertura de empresa. Mas os impostos chegam em três frentes ao mesmo tempo.
R$ 3.000/mês como CPF
| Tributo | Base de cálculo | Alíquota | Valor |
|---|---|---|---|
| INSS | R$ 3.000 | 20% | R$ 600 |
| IR (carnê-leão) | R$ 2.400 (após INSS) | Isento (abaixo de R$ 2.824) | R$ 0 |
| ISS | R$ 3.000 | 5% | R$ 150 |
| Total de impostos | R$ 750 | ||
| Líquido | R$ 2.250 | ||
| Carga tributária | 25% |
R$ 5.000/mês como CPF
| Tributo | Base de cálculo | Alíquota | Valor |
|---|---|---|---|
| INSS | R$ 5.000 | 20% | R$ 1.000 |
| IR (carnê-leão) | R$ 4.000 (após INSS) | 15% − R$ 492,87 | R$ 107,13 |
| ISS | R$ 5.000 | 5% | R$ 250 |
| Total de impostos | R$ 1.357,13 | ||
| Líquido | R$ 3.642,87 | ||
| Carga tributária | 27,1% |
R$ 10.000/mês como CPF
| Tributo | Base de cálculo | Alíquota | Valor |
|---|---|---|---|
| INSS | R$ 10.000 | 20% (teto: R$ 8.157,41) | R$ 1.631,48 |
| IR (carnê-leão) | R$ 8.368,52 (após INSS) | 27,5% − R$ 1.120,56 | R$ 1.180,78 |
| ISS | R$ 10.000 | 5% | R$ 500 |
| Total de impostos | R$ 3.312,26 | ||
| Líquido | R$ 6.687,74 | ||
| Carga tributária | 33,1% |
O INSS do CPF é o maior vilão silencioso: 20% sobre a receita bruta, sem teto real para rendas mais baixas. Para quem ganha R$ 3.000, o INSS representa 80% da carga tributária total.
MEI: o DAS fixo
O MEI paga um valor fixo mensal: o DAS (Documento de Arrecadação do Simples Nacional). Em 2026, o DAS para prestadores de serviço é R$ 75,90/mês — valor único que engloba INSS (5% do salário mínimo), ISS fixo e IRPJ simbólico.
| Faturamento | DAS mensal | Imposto total | Carga tributária |
|---|---|---|---|
| R$ 3.000/mês | R$ 75,90 | R$ 75,90 | 2,5% |
| R$ 5.000/mês | R$ 75,90 | R$ 75,90 | 1,5% |
| R$ 10.000/mês | R$ 75,90 | R$ 75,90 | 0,76% |
O MEI tem a menor carga tributária absoluta do mercado para quem fatura dentro do limite. A desvantagem está nos detalhes:
Limite de faturamento: R$ 81.000/ano (R$ 6.750/mês em média). Quem ultrapassa precisa migrar para outro regime.
Benefícios previdenciários reduzidos: o INSS do MEI é de 5% do salário mínimo — suficiente para aposentadoria por tempo de contribuição, mas no valor de 1 salário mínimo. Sem complementação adicional, a aposentadoria será de R$ 1.518/mês (salário mínimo 2026).
Impossibilidade de contratar funcionários: o MEI pode ter no máximo 1 funcionário com salário mínimo. Para crescer com equipe, precisa migrar para ME ou EPP.
Simples Nacional: depende do anexo
O Simples Nacional é o regime tributário de CNPJ mais usado por pequenas empresas. A alíquota não é fixa — depende do anexo em que sua atividade se enquadra e do seu faturamento acumulado nos últimos 12 meses.
Para serviços, existem dois anexos principais:
Anexo III (atividades como TI, publicidade, arquitetura, fisioterapia): alíquota começa em 6% e é favorecida pelo Fator R. Se sua folha de pagamento (pró-labore + salários) for igual ou superior a 28% da receita bruta dos últimos 12 meses, você se enquadra no Anexo III.
Anexo V (serviços profissionais como engenharia, consultoria, medicina, advocacia sem OAB especial): alíquota começa em 15,5% — mais de duas vezes o Anexo III.
Simples Nacional — Anexo III (Fator R favorável)
| Faturamento mensal | Receita bruta anual aprox. | Alíquota efetiva | Imposto mensal |
|---|---|---|---|
| R$ 3.000 | R$ 36.000 | 6,0% | R$ 180 |
| R$ 5.000 | R$ 60.000 | 6,0% | R$ 300 |
| R$ 10.000 | R$ 120.000 | 11,2% | R$ 1.120 |
Simples Nacional — Anexo V (sem Fator R)
| Faturamento mensal | Receita bruta anual aprox. | Alíquota efetiva | Imposto mensal |
|---|---|---|---|
| R$ 3.000 | R$ 36.000 | 15,5% | R$ 465 |
| R$ 5.000 | R$ 60.000 | 15,5% | R$ 775 |
| R$ 10.000 | R$ 120.000 | 17,5% | R$ 1.750 |
O Fator R é o principal fator de planejamento tributário no Simples Nacional para serviços. Pagar um pró-labore maior ao sócio-administrador pode migrar a empresa do Anexo V para o Anexo III — reduzindo a alíquota de 15,5% para 6%.
Comparativo por faixa de renda
| Regime | R$ 3.000/mês | R$ 5.000/mês | R$ 10.000/mês |
|---|---|---|---|
| CPF (pessoa física) | R$ 750 (25%) | R$ 1.357 (27,1%) | R$ 3.312 (33,1%) |
| MEI | R$ 76 (2,5%) | R$ 76 (1,5%) | Não permitido* |
| Simples — Anexo III | R$ 180 (6%) | R$ 300 (6%) | R$ 1.120 (11,2%) |
| Simples — Anexo V | R$ 465 (15,5%) | R$ 775 (15,5%) | R$ 1.750 (17,5%) |
*O MEI tem limite de R$ 81.000/ano. Faturamento de R$ 10.000/mês por 12 meses = R$ 120.000 — acima do limite.
Os valores de CPF incluem INSS + IR + ISS. Os valores do Simples são apenas o DAS (o Simples unifica todos os tributos federais, estaduais e municipais em uma guia).
Qual regime paga menos?
A resposta direta: MEI paga menos em termos absolutos para quem cabe no limite. Mas para quem fatura acima de R$ 81.000/ano, o MEI não é uma opção.
Entre os regimes disponíveis para faturamentos maiores:
- Simples Anexo III é muito mais barato que CPF para quase todas as faixas de renda. Quem ganha R$ 5.000/mês paga R$ 300 no Simples III contra R$ 1.357 no CPF — uma economia de R$ 1.057/mês.
- Simples Anexo V ainda é mais barato que CPF para rendas acima de R$ 5.000, mas a diferença diminui.
- CPF é o pior regime em termos de carga tributária para quem tem renda consistente, especialmente porque o INSS de 20% não tem equivalente no Simples ou MEI.
O problema: abrir CNPJ tem custos de abertura, obrigações contábeis mensais (R$ 150 a R$ 400/mês de contador) e exige disciplina financeira separada. Para rendas baixas e irregulares, o CPF pode ser mais simples apesar da carga maior.
A decisão entre regimes depende do faturamento, da regularidade da renda, dos custos operacionais e da atividade específica. Quer comparar sua situação específica? Use a calculadora Comparador CPF vs CNPJ.