✦ Resposta direta
O custo real de um funcionário CLT é de 1,7x a 2x o salário bruto. Entenda cada encargo e use esse número para negociar como PJ.
O que está "escondido" no seu salário
Quando você recebe R$ 3.000 por mês, a empresa não paga apenas R$ 3.000. Ela paga esse valor mais uma série de encargos obrigatórios que nunca aparecem no seu contracheque — mas saem diretamente do orçamento do empregador.
Entender esse custo real serve para duas coisas:
- Saber o quanto você realmente "vale" para a empresa
- Ter argumentos mais sólidos ao negociar uma proposta PJ
Os encargos obrigatórios sobre o salário CLT
INSS Patronal — 20% do salário bruto
A empresa paga 20% do seu salário bruto para o INSS, independente do que é descontado do seu contracheque. Esse custo é invisível para o trabalhador, mas real para o empregador.
Para um salário de R$ 5.000, isso representa R$ 1.000 por mês só de INSS patronal.
(Obs.: empresas no Simples Nacional contribuem de forma diferente, via CPP embutida na DAS, mas a obrigação existe em todos os regimes.)
FGTS — 8% do salário bruto
O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) é 8% do salário bruto depositado mensalmente em conta vinculada ao trabalhador. É um custo adicional que a empresa arca — não é deduzido do seu salário.
Para um salário de R$ 5.000 → R$ 400/mês de FGTS.
13° salário — equivale a 1/12 do salário por mês
O 13° salário representa um salário extra por ano. Distribuído mensalmente, é como se a empresa tivesse que reservar 8,33% do salário todo mês para pagar o 13°.
Para R$ 5.000 → reserva mensal de ~R$ 416.
Férias + terço constitucional — ~1,33 salário por ano
Todo CLT tem 30 dias de férias por ano, com acréscimo de 1/3 do salário (terço constitucional). Distribuído mensalmente, é uma reserva de ~11,1% do salário.
Para R$ 5.000 → reserva mensal de ~R$ 555.
Outros encargos e benefícios
Dependendo do setor, convenção coletiva e política da empresa, há ainda:
- Vale-transporte: até 6% do salário pode ser descontado do trabalhador, mas o restante é custo da empresa
- Vale-refeição/alimentação: em muitos setores, obrigatório por convenção coletiva
- Seguro de vida: comum em grandes empresas, obrigatório em algumas convenções
- SAT/RAT (Seguro de Acidente do Trabalho): 1% a 3% sobre o salário, conforme o risco da atividade
- Contribuições ao sistema S (SESC, SENAI, SENAC etc.): ~5,8% do salário
Tabela: custo real por faixa salarial em 2026
A regra prática é que o custo total de um funcionário CLT equivale a 1,7x a 2x o salário bruto. A tabela abaixo usa o multiplicador de 1,7x como estimativa conservadora (sem benefícios extras) e 2x como estimativa completa (com todos os benefícios e encargos):
| Salário bruto | Custo mínimo (~1,7x) | Custo completo (~2x) |
|---|---|---|
| R$ 1.621 (mínimo) | ~R$ 2.756 | ~R$ 3.242 |
| R$ 2.000 | ~R$ 3.400 | ~R$ 4.000 |
| R$ 3.000 | ~R$ 5.100 | ~R$ 6.000 |
| R$ 4.000 | ~R$ 6.800 | ~R$ 8.000 |
| R$ 5.000 | ~R$ 8.500 | ~R$ 10.000 |
| R$ 8.000 | ~R$ 13.600 | ~R$ 16.000 |
| R$ 10.000 | ~R$ 17.000 | ~R$ 20.000 |
✅Use esses números na negociação PJ
Se você ganhava R$ 5.000 CLT, a empresa pagava entre R$ 8.500 e R$ 10.000 por mês por você. Ao contratar você como PJ, o cliente economiza na parte patronal — mas você precisa de pelo menos R$ 6.500 a R$ 7.000 para cobrir seus próprios encargos e manter o mesmo padrão de vida.
Detalhamento: salário de R$ 5.000 CLT
Veja como o custo se decompõe para um salário bruto de R$ 5.000/mês:
| Componente | Cálculo | Valor mensal |
|---|---|---|
| Salário bruto | — | R$ 5.000,00 |
| INSS patronal (20%) | 20% × R$ 5.000 | R$ 1.000,00 |
| FGTS (8%) | 8% × R$ 5.000 | R$ 400,00 |
| 13° (provisionado) | R$ 5.000 / 12 | R$ 416,67 |
| Férias + 1/3 (provisionadas) | (R$ 5.000 × 1,33) / 12 | R$ 554,17 |
| SAT/RAT (~2%) | 2% × R$ 5.000 | R$ 100,00 |
| Sistema S (~5,8%) | 5,8% × R$ 5.000 | R$ 290,00 |
| Total estimado | ~R$ 7.760,84 |
Sem contar vale-refeição (em média R$ 600–800/mês) e seguro de vida, o custo já ultrapassa R$ 7.700/mês para um salário de R$ 5.000.
Por que isso importa para você como PJ
Quando uma empresa contrata um PJ em vez de um CLT, ela elimina os encargos patronais — mas você não. Como PJ ou MEI, você assume:
- INSS (contribuição própria): 5% a 20% do salário (MEI paga valor fixo de R$ 86,05/mês, mas com benefícios limitados)
- Ausência de FGTS: você não acumula fundo de garantia
- Férias e 13° por conta própria: se não se organizar financeiramente, não tira férias e não tem 13°
- Plano de saúde individual: geralmente mais caro que o coletivo empresarial
- Impostos sobre faturamento: DAS MEI, ISS, ou impostos PF via carnê-leão
O cliente pode economizar com sua contratação como PJ, mas você precisa precificar de forma que cubra todos esses custos. O multiplicador mínimo recomendado é de 1,5x a 1,8x o que você recebia líquido como CLT.
Alternativa PJ/MEI e o risco de vínculo empregatício
Ao substituir um funcionário CLT por um PJ, a empresa reduz custos — mas assume o risco de reconhecimento de vínculo empregatício se a relação tiver características de emprego:
- Exclusividade (trabalha só para esse cliente)
- Subordinação (segue horários e ordens diretas)
- Pessoalidade (não pode delegar para outra pessoa)
- Habitualidade (trabalho regular e contínuo)
- Remuneração fixa mensal
Se esses elementos estiverem presentes, um processo trabalhista pode reverter o contrato PJ para CLT retroativamente — com todas as verbas rescisórias devidas. Para o trabalhador isso pode ser bom, mas para o cliente representa risco financeiro.
Entender esse cenário ajuda a negociar contratos PJ bem estruturados — com escopo definido, sem exclusividade compulsória e com autonomia real de trabalho.